9.20.2005

Como acabou a greve

Felipe Peroni, estudante de jornalismo, ECA-USP

1- Aconteceu um pouco antes

A greve começou a despencar quando, na sexta-feira passada, a Associação dos Docentes da USP decidiu pela suspensão da greve e nos comunicou através de um banner no site. Nesse ponto, estava difícil manter a USP parada - os professores queriam dar aula, e uma boa parte dos alunos tinha uma postura apolítica, e era contra a greve na medida em que ela poderia atrapalhar as férias em dezembro e janeiro. Assim, muitas faculdades estavam começando a ter aulas, mesmo em greve. O Sindicato dos Funcionários e o DCE também posicionavam-se a favor da suspensão da greve. Comentava-se que o bloco Adusp-Sintusp-DCE estavam negociando em separado um acordo de fim-de-greve com a reitoria. A greve estava por um fio.
Segunda-feira ao meio-dia houve uma assembléia de funcionários que deliberou, por grande maioria, a continuação da greve - os funcionários discordaram da posição da diretoria sindical. A História suspendeu a greve no fim do dia. A FFLCH estava com dificuldades pra manter a greve. Os estudantes da ECA aprovaram a continuação da greve por uma pequena maioria. A USP de Ribeirão Preto também aprovou, por pequena maioria, a continuação da greve. Com isso, começamos a Assembléia às 18:00 ontem, com quase 200 pessoas na sala.

2- Debates

Estava em alta na Assembléia a idéia de suspender a greve e continuar a mobilização, com paralisações pontuais em dias de ato. Era a principal idéia defendida pelo DCE, e muitos estudantes simpatizavam com ela. Alguns até propunham conquistar a ajuda dos Notáveis, embora eles só apóiem greves em casos especiais... Falava-se que a mobilização seria a mesma, ou até aumentaria devido ao contato com os colegas - os alunos mais passivos sairiam das "férias" e quem sabe participariam dos atos. Ao mesmo tempo, tentaríamos mobilizar os alunos de outras unidades.
Até que subiu um negrão, um funcionário da USP muito simples, com uma voz grave e entonada, e discursou: "A direção do sindicato queria que a gente saísse da greve. Mas a minha categoria votou pela continuidade da greve... porque nós falamos 'Nós não vamos deixar sozinhos os estudantes que apanharam da polícia.' Agora, o que vocês tão discutindo... quando é mais fácil mobilizar, estudando, trabalhando, ou em greve? Eu acredito que seja em greve, porque enquanto eu estou lá na sala, consertando um ar-condicionado, fica meio difícil eu discutir e mobilizar os companheiros de outras unidades."
A proposta de suspensão da greve mostrou aí um caráter ilusório: não era possível manter a mobilização sem greve. Em um certo momento, até um membro do DCE admitiu isso, falando: "Eu reconheço que a mobilização que nós conseguimos só foi possível porque estávamos em greve." Aí a mesa começou a virar. Os discursos a favor da continuação da greve ganharam força. "Temos que reconstruir a greve", alguns diziam. Discursava-se que era necessário continuar a mobilização, e isso só seria possível mantendo a greve. "Vocês vão escolher o caminho fácil, acabar com a greve? Ou vão reconstruí-la", disse um orador. Os aplausos aos defensores da greve se tornavam cada vez mais fortes.

3- Deliberação

Chegou a hora da votação de pauta. A sala começou a encher. Vindo dos fundos e das portas laterais, dezenas de alunos (quase uma centena) entrou na sala, ocupando os bancos vazios e as escadas. A mesa foi obrigada a afastar-se. Na frente dos alunos "retardatários", via-se a diretora do Sintusp, Nelly Wado, com um sorriso estampado. Alunos que não quiseram assistir à discussão. "Eles vieram derrubar a greve", alguém comentou. A votação precisou de contagem. Cento e cinqüenta e tantos a cento e quarenta e tantos... a greve foi suspensa por sete votos. Em seguida, os alunos retardatários levantaram e saíram da sala com a mesma rapidez. A greve tinha acabado.

2 Comments:

Anonymous Fernando Moreno said...

Aluno que conhece o movimento estudantil da USP nao engole essa...
Criaçao de quorum é tipica sim dos maiores interessados em que ocorram as greves, sempre encontrando meios de pisotear o processo democratico.
Já presenciei inumeras assembléias de CAs que foram "compartilhadas" por estudantes que nao pertenciam ao curso respectivo, mas sem duvida pertenciam a inumeros partidos que nao citarei...
Mesmo que alguem prefira a versao de que a assembleia do DCE tenha desenrolado como relatada neste blog(minimamente questionavel), nao é em nada ilustrativa da rotina do movimento estudantil, o qual seria capaz de disputar com a Alesp nos quesitos "praticas anti-democraticas" e truculencia.
Democracia na USP, a começar pelos CAs e DCE.

9:04 PM  
Blogger Estudante contra o veto! said...

Fernando, você está errado.

A participação aberta nas Assembléias faz parte do processo democrático. Nada impede que um professor, funcionário ou aluno de outro curso assista, opine e dê informes em Assembléias.

Não há direito a VOTO.

Impedir que indivíduos de fora assistam à Assembléia seria, aí sim, ANTI-DEMOCRÁTICO.

Veja as Congregações de Unidade: elas fazem sessões fechadas, apenas para docentes titulares e RDs. Não é autoritário? Não impede que todos participem?

Faremos igual???

Você pode questionar a "criação de quórum". Mas já assisti inúmeras vezes assembléias que operaram no sentido contrário.

Grupos anti-grevistas que aparecem apenas para votar. Ou que esvaziam as assembléias. O correto é que todos assistam, intervenham e VOTEM. Golpes, para os dois lados, não podem ser alternativa.

AGORA, eu me pergunto: você é contra a greve? Mas foi a "criação de quórum" que ENCERROU A GREVE!

Achei, até, que o relato do Peroni, publicado no blog, foi impessoal demais.

Mas se você tem alguma razão para achá-lo questionável, FORMULE SEU QUESTIONAMENTO.

Rafael Sampaio
ECA-USP.

3:45 PM  

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