9.30.2005

Último texto sobre a LDO

Post de Rafael Sampaio

Pessoal,


Eu gostaria de escrever sobre a ingerência do governo Alckmin e trazer outros dados prontos sobre os acontecimentos. Gostaria de fazer um relato, também, como um participante das manifestações. Vou fazê-lo em breves parágrafos e acrescentar alguns parágrafos do penúltimo texto que escrevi para a Agência Carta Maior.

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Acho que todos têm muito claro que a movimentação pela derrubada do veto foi para beneficiar o ensino público como um todo. Quando a Folha e o Estado lançam editoriais como os do dia 21 e 22 de setembro, afirmando que as universidades serão as únicas beneficiadas, é usar da mais rala falácia possível.

Fico admirado, não só, de como a Folha pode ser perversa. Em seu editorial (publicado aqui), eles são capazes de fornecer todas as informações sobre a luta pela Lei de Diretrizes Orçamentárias (aumento de 30% para 31% e de 9,57% para 10%), mas omitirem que nossa luta não foi em benefício próprio. Foi, sim, em benefício de toda a educação.

Capazes de jogar o ensino médio contra a universidade, como se ou fôssemos mal-intencionados com relação a esta categoria, ou ignorássemos suas necessidades. E capaz, também, de atribuir os problemas à administração universitária tão-somente.

Inevitável dizer que, no editorial, eles omitiram a truculência com que os estudantes foram tratados, duas vezes, pela Polícia Militar. Me pergunto o que leva a empresa a tomar essa posição política.

De toda forma, a Folha trabalha com claros objetivos para as eleições de 2006. Definitivamente Alckmin não é o candidato a presidente preferido pela cúpula da Folha. Muito próximo dos grupos do PFL, autoritário e pouco simpático, o governador tucano faz o papel de testa-de-ferro da nata intelectual do PSDB (atualmente uma minoria). É diferente de FHC, Serra, Montoro e Aloysio Nunes (Secretário de Governo da Prefeitura). Ele é encarado como um indivíduo à direita do PSDB. Já Serra é glorificado pela Folha até em editorial.

Os movimentos sociais paulistas percebem essa fragilidade de Alckmin e a força que pode haver uma candidatura da esquerda para o governo paulista. Por isso têm enfrentado Alckmin com todas as forças, para expor a veia autoritária do governo. O MST invadiu a Secretaria Estadual de Justiça e o Incra, na esperança de ter mais famílias assentadas. Os sem-teto se mobilizam para protestar na cidade, contra a CDHU e a Secretaria de Habitação. O movimento pela educação cobra sua parte - já que a Assembléia sinaliza com chance de aumento de verbas, os estudantes lutam por ela. E são atacados pela Polícia Militar.

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http://agenciacartamaior.uol.com.br/agencia.asp?id=3490&cd_editoria=012&coluna=reportagens

São Paulo - Quarta-feira (14), 19h30. Cerca de mil manifestantes, em frente à Assembléia Legislativa de São Paulo, aguardam as negociações de seus líderes com a Polícia Militar para entrar. Mais de 90 policiais bloqueiam a passagem dos estudantes e funcionários das universidades estaduais paulistas. Ao avaliar que a entrada é impossível, quinhentos estudantes decidem, em regime de assembléia, ocupar a avenida Pedro Álvares Cabral, em frente à Assembléia Legislativa. A tropa de choque os recebe, com violência e bombas de gás lacrimogêneo.

PS: Dá até pra terminar com aquela música.. "São Paulo, dia 1° de outubro de 1992. Oito horas da manhã". Pra quem conhece e sabe que o coronel Ubiratan esteve na tribuna para discutir o veto :)

9.29.2005

Por pouco...

No fim das contas prevaleceu a força do dinheiro e do poder político. O veto não foi derrubado por 3 votos. A votação foi ridícula, foi voto por bancada e os que eram a favor da manutenção nem estavam no plenário. Os deputados governistas não tiveram a hombridade de colocar claramente suas posições.

Por fim, o cenário que vem por aí é bem obscuro, o governador Alckmin vai dar umas migalhas, aumentar a verba em 0,1%, de 9,57% para 9,67%. Um ganho de nossas mobilizações? Discordo totalmente. Essa migalha além de não resolver os problemas da expansão de vagas sem qualidade de vagas, retira verbas da educação total do estado, pois Alckmin não aumentará as verbas para a educação como um todo. Ou seja, aquele cenário que ele falaciosamente ditava de que tiraria verba do ensino médio e fundamental para investir no superior se concretizará nas mãos do excelentíssimo governador. Por isso defendo desde já 9,57% para as universidades, não queremos migalhas, tampouco retirar dinheiro do ensino fundamental e médio do estado, há anos bem mais sucateado que as universidades.

Nelson Lin

9.26.2005

Resumo dos últimos dias

Como todo mundo pode notar, diminuiu muito na última semana o número de postagens aqui nesse famigerado blog. Coisas de fim de greve. Não há tempo para construir movimento. Mesmo que a passeata de 4ª feira leve muitas pessoas, será sem discussão e amadurecimento.
Na ECA ainda teremos uma paralisação amanhã, com aula pública e assembléia. Mas, no geral, é óbvio o quanto o fim da greve enfraqueceu aquelas unidades que estavam mobilizadas, em especial a ECA.
Ainda assim, cabe a nós uma vez mais tentar ocupar a Alesp na próxima 4ª feira, já que é o que nos resta no momento. Esperamos, novamente, não sofrer com a truculência da PM.
Resumo breve da semana passada. Estado e Folha publicaram editoriais sobre a reivindicação do movimento (Estado no dia 21/09 e Folha no 22/09). Diferentes no nível de asco que provocaram, os dois se manifestavam a favor do governador e, óbvio, contra o pedido por mais verbas para a educação. No geral, o pífio argumento de que aumentar as verbas para este setor prejudica os demais e fere a autonomia do governador ao engessar o orçamento. Má fé ou erro de apuração, a verdade é que a verba sairia já das sobras de arrecadação, não engessando nada nem retirando dinheiro de algum setor.
As demais mentiras e a conversa tida com Antônio Carlos Pereira, chefe dos editorialistas do Estado, deixo para que o Tadeu descreva. Trata-se de um homem, digamos, com certas dificuldades para o diálogo. Mas a gente não se cansa nunca de falar com ele, ligaremos outras vezes.

João Peres

9.20.2005

Como acabou a greve

Felipe Peroni, estudante de jornalismo, ECA-USP

1- Aconteceu um pouco antes

A greve começou a despencar quando, na sexta-feira passada, a Associação dos Docentes da USP decidiu pela suspensão da greve e nos comunicou através de um banner no site. Nesse ponto, estava difícil manter a USP parada - os professores queriam dar aula, e uma boa parte dos alunos tinha uma postura apolítica, e era contra a greve na medida em que ela poderia atrapalhar as férias em dezembro e janeiro. Assim, muitas faculdades estavam começando a ter aulas, mesmo em greve. O Sindicato dos Funcionários e o DCE também posicionavam-se a favor da suspensão da greve. Comentava-se que o bloco Adusp-Sintusp-DCE estavam negociando em separado um acordo de fim-de-greve com a reitoria. A greve estava por um fio.
Segunda-feira ao meio-dia houve uma assembléia de funcionários que deliberou, por grande maioria, a continuação da greve - os funcionários discordaram da posição da diretoria sindical. A História suspendeu a greve no fim do dia. A FFLCH estava com dificuldades pra manter a greve. Os estudantes da ECA aprovaram a continuação da greve por uma pequena maioria. A USP de Ribeirão Preto também aprovou, por pequena maioria, a continuação da greve. Com isso, começamos a Assembléia às 18:00 ontem, com quase 200 pessoas na sala.

2- Debates

Estava em alta na Assembléia a idéia de suspender a greve e continuar a mobilização, com paralisações pontuais em dias de ato. Era a principal idéia defendida pelo DCE, e muitos estudantes simpatizavam com ela. Alguns até propunham conquistar a ajuda dos Notáveis, embora eles só apóiem greves em casos especiais... Falava-se que a mobilização seria a mesma, ou até aumentaria devido ao contato com os colegas - os alunos mais passivos sairiam das "férias" e quem sabe participariam dos atos. Ao mesmo tempo, tentaríamos mobilizar os alunos de outras unidades.
Até que subiu um negrão, um funcionário da USP muito simples, com uma voz grave e entonada, e discursou: "A direção do sindicato queria que a gente saísse da greve. Mas a minha categoria votou pela continuidade da greve... porque nós falamos 'Nós não vamos deixar sozinhos os estudantes que apanharam da polícia.' Agora, o que vocês tão discutindo... quando é mais fácil mobilizar, estudando, trabalhando, ou em greve? Eu acredito que seja em greve, porque enquanto eu estou lá na sala, consertando um ar-condicionado, fica meio difícil eu discutir e mobilizar os companheiros de outras unidades."
A proposta de suspensão da greve mostrou aí um caráter ilusório: não era possível manter a mobilização sem greve. Em um certo momento, até um membro do DCE admitiu isso, falando: "Eu reconheço que a mobilização que nós conseguimos só foi possível porque estávamos em greve." Aí a mesa começou a virar. Os discursos a favor da continuação da greve ganharam força. "Temos que reconstruir a greve", alguns diziam. Discursava-se que era necessário continuar a mobilização, e isso só seria possível mantendo a greve. "Vocês vão escolher o caminho fácil, acabar com a greve? Ou vão reconstruí-la", disse um orador. Os aplausos aos defensores da greve se tornavam cada vez mais fortes.

3- Deliberação

Chegou a hora da votação de pauta. A sala começou a encher. Vindo dos fundos e das portas laterais, dezenas de alunos (quase uma centena) entrou na sala, ocupando os bancos vazios e as escadas. A mesa foi obrigada a afastar-se. Na frente dos alunos "retardatários", via-se a diretora do Sintusp, Nelly Wado, com um sorriso estampado. Alunos que não quiseram assistir à discussão. "Eles vieram derrubar a greve", alguém comentou. A votação precisou de contagem. Cento e cinqüenta e tantos a cento e quarenta e tantos... a greve foi suspensa por sete votos. Em seguida, os alunos retardatários levantaram e saíram da sala com a mesma rapidez. A greve tinha acabado.

9.16.2005

Seguem abaixo sugestões de trilha sonora para a ação da polícia nos últimos dias. Deixo que as músicas falem por si só. Apenas aviso aos companheiros que hoje começarão a sair denúncias mais profundas sobre a violência cometida contra os estudantes. Não conto onde, senão é capaz dos “homi” irem lá fechar tudo... É brincadeira. A truculência, espero, não chegará a tanto.

Para quem esteve lá e teve que correr dos PMs, deixo abaixo os contatos da Ouvidoria da PM. Quanto mais gente denunciar, melhor. Quanto mais detalhes, mais chance de encontrar os culpados. Mesmo quem não sofreu com o problema, peço que ligue por solidariedade.

0800 17 70 70
ouv-policia@ouvidoria-policia.sp.gov.br

João Peres - 3° ano de Jornalismo noturno (ECA-USP)

Maloca o flagrante
Bezerra da Silva

“Os federais queriam o flagrante e desceram a mamona na rapaziada.
(...) Se quiser me levar eu vou, nesse flagrante forjado eu vou.
Mas na frente do homem da capa preta
É que a gente vai saber quem foi que errou”

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Tribunal de Rua
Marcelo Yuka

“A viatura foi chegando devagar
E de repente, de repente resolveu me parar
Um dos caras saiu de lá de dentro
Já dizendo: aí compadre, você perdeu
Se eu tiver que procurar você tá fudido
Acho melhor você ir deixando esse flagrante comigo
No início eram três, depois vieram mais quatro
Agora eram sete os samurais da extorsão
Vasculhando meu carro
Metendo a mão no meu bolso
Cheirando a minha mão

De geração em geração
Todos no bairro já conhecem essa lição
Eu ainda tentei argumentar
Mas tapa na cara para me desmoralizar

Tapa na cara para mostrar quem é que manda
Pois os cavalos corredores ainda estão na banca
Nesta cruzada de noite encruzilhada
Arriscando uma palavra democrata
Como um Santo Graal
Na mão errada dos homens
Carregada em devoção

O cano do fuzil refletiu o lado ruim do Brasil
Nos olhos de quem quer
E me viu único civil rodeado de soldados
Como se eu fosse o culpado
No fundo querendo estar
À margem do seu pesadelo
Estar acima do biotipo suspeito
Mesmo que seja dentro de um carro importado

Com um salário suspeito
Endossando a impunidade à procura de respeito
Mas nesta hora só tem sangue quente
E quem tem costa quente

Pois nem sempre é inteligente
Peitar um fardado alucinado
Que te agride e ofende para te
Levar alguns trocados

Era só mais uma dura
Resquício de ditadura
Mostrando a mentalidade de quem se sente autoridade
Neste tribunal de rua”

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Cavaleiros Azuis
Alexandre Carlo Cruz

“(...) Eles fazem perguntas, destroem o ego de quem está perto
corra de puder, esconda-se se for esperto
E ao ver eles agirem com tanta coragem e determinação
Ficamos nos perguntando
Ao vermos notícias na televisão
Cavaleiros azuis, aonde estão vocês?
Quando os verdadeiros marginais
Matam inocentes nas barbas da lei

Preto, branco, não importa a cor
Se você for pobre e trabalhador
Você sempre será o alvo predileto do executor
Pois aqui nesse país a classe baixa da população
Só é linda e tem futuro quando é época de eleição
E mesmo quem conseguiu um bom nível de vida alcançar
Não está livre de ser humilhado, basta para isso num beco encontrar
Um ou mais cavaleiros azuis, sempre com suas espadas na mão
Pegando sua dignidade e jogando-a toda no chão
PM Legislativa
João Peres - 3° ano de Jornalismo noturno (ECA-USP)

Cuidado, deputados. Na falta de trabalho por parte dos senhores, há alguns PMs, conscientes de seus deveres como cidadãos, que já se rogam o poder de legislar. E não estão fazendo pouca coisa. Onde a Constituição tem falhas, estão adicionando emendas, de modo a tornar o país mais agradável. O direito de ir e vir, por exemplo, foi trocado pelo direito de ir. Todos vão, ninguém volta. Pensa a PM que é melhor assim. Eles devem saber o que é bom para nós. Já o mostraram na última quarta-feira.


Está agora inclusive criada a calçada de mão única. A nova lei entrou em vigor na noite de ontem. Assembléia Legislativa, dia 15/09, oito da noite. Quatro estudantes tentam descer até a Avenida Pedro Álvares Cabral. Já na primeira esquina se deparam com cinco PMs – pelo menos é o que eles garantiram ser. Vez mais, nenhum deste grupo estava identificado. – O grupo de policiais não deixa os estudantes passarem. Argumento: porque não. Um dos companheiros afirma:

- Meu direito de ir e vir está garantido na Constituição.
- Agora, eu alterei a Constituição. Vocês podem ir. Vir, não – responde um dos truculentos. Salve, salve. Viva a Nova Constituição da República.
- De quem é a ordem para esse fechamento?
- Não importa, é minha.
- E onde está sua identificação?
- Aonde tá a sua?
- Taqui – mostro minha identidade
- Não quero ver sua identidade, não vou mostrar a minha.
- Se está tolhido o direito de ir e vir, estamos então em uma ditadura. É isso?

Silêncio. Cara de “quem cala, consente”. Mais uma lamentável atitude de uma polícia despreparada. Estado de sítio na AL de São Paulo. Em frente ao estacionamento da casa, 36 cavalos do Choque prontos para ação. Mais duas tropas da cavalaria no melhor estilo “stand by”. Mais algumas dezenas de PMs, vários deslocados de outros batalhões, deixando muitas áreas da cidade ainda mais vulneráveis. Boa parte carregando o famoso “kit repressão”: gás lacrimogêneo, bombas de efeito moral, gás pimenta e outros artigos mais.


Culpa dos estudantes, que continuam pregando o terror pela cidade com seus guarda-chuvas, cadernos e canetas. Armas de grosso calibre. A PM já acredita em ligação com a Al Qaeda. Em um vídeo encontrado na internet, um estudante empunha um fusil e mostra uma lista das próximas vítimas do movimento.

Ontem, a patuscada governista atingiu seu objetivo. Após a dura repressão da quarta-feira e o arsenal bélico ainda mais engrossado desta quinta, os PMs conseguiram intimidar e amedrontar os estudantes. Mas não o suficiente para calá-los. A passeata uma vez mais seguiu Brigadeiro acima e terminou no Masp. A população começa a tomar contato com o problema e, aos poucos, tomara, surgirá o verdadeiro terrorista da história.

9.15.2005

Texto de Tadeu Breda, 3° ano de Jornalismo noturno (que foi preso ontem)

Notícias de uma prisão

O mesmo helicóptero que deu rasante com o holofote ligado, ontem, na av. Brigadeiro Luis Antônio (em São Paulo) me perseguiu e às três pessoas que estavam comigo -- o Bidóia, meu amigo de Botucatu que faz direito na São Francisco, o Fabio Brandt e a Aline, do 1o ano de Jornot. Já estávamos beeeeem longe da Assembléia Legislativa quando apareceu uma viatura, do nada, e nos prendeu.

Fizeram todos deitarem no chão com as mãos na nuca e desceram a porrada. Eu tomei duas bicas na costela, quando já estava rendido. O PM foi tão filho da puta que esperou o cinegrafista da Globo desligar a câmara pra me chutar. Como se não bastasse, eles ainda deram uma cacetada na perna do Bidóia, meu amigo, e colocaram uma arma na cara do Mortadela.

No total foram 12 detidos. Cinco sofreram agressão física. Destes, dois quase perderam o pé numa bomba de efeito "moral". Dizer que perderam o pé é exagero, lógico, mas é isso que vem à mente ao ver a canela do cara toda queimada e cheia de ferimentos por estilhaço. A calça e o tênis deles foram estraçalhados.

Fico imaginando o quanto de dinheiro foi gasto numa operação como essa, com helicóptero, motocicletas, camburões, centenas de PMs. Tudo para deter estudantes que manifestavam-se pacificamente por algo tão óbvio como a educação pública.

Mas estamos todos bem. E hoje voltaremos à Alesp para protestar a derrubada do veto. Nós precisamos de uma educação melhor, até para esses gansos fardados, para aprenderem a respeitar as pessoas e, antes disso, perguntar porquê elas estão nas ruas.

Abaixo a repressão!

Cristiane Capuchinho e Natália Guerreiro, do 3° ano de Jornalismo matutino (ECA-USP)

Sobre a manifestação de ontem

Boa tarde, pessoal.

Estamos enviando este texto para que todos saibam o que aconteceu ontem durante ação da polícia militar em uma manifestação das universidades estaduais paulistas e centros de ensino técnico.

Como a maioria deve saber, algumas faculdades da USP (e das outras universidades) estão paradas desde o dia 25 de agosto para lutarmos contra o veto do governador ao aumento de 1% no repasse de verba para a educação pública. A saber, os deputados haviam concedido um aumento de repasse de 9,57% para 10% para as universidades públicas e Fatecs; além de aumentar de 30% para 31% a porcentagem do ICMS que vai para a educação pública em geral. No início de agosto, o governador vetou este aumento, tirando 470 milhões de reais do ensino público.

Após diversas manifestações e negociações, conseguimos que os deputados colocassem em pauta o veto do governador (pois eles podem derrubar em votação esta decisão), mas eles não inverteram a lista de pautas, sendo assim nossa reivindicação é o item 191.

Na última terça-feira (13), houve uma reunião entre o Fórum das Seis (que reúne os presidentes das entidades das três universidades), reitores e o colégio da Assembléia Legislativa. Nesta reunião ficou decidida a efetuação de assembléias extraordinárias para a discussão do veto. As discussões podem se estender por 12h (em dias diferentes), ao final delas obrigatoriamente a Assembléia tem de votar.

Ontem (14), às 19h, aconteceu a primeira delas e os estudantes, professores e funcionários da USP, Unesp, Unicamp e Fatecs fizeram uma manifestação saindo do MASP até a Assembléia Legislativa (no Ibirapuera), onde queríamos entrar para acompanhar a sessão (direito de qualquer cidadão).

Desde o princípio, na Avenida Paulista, uma grande quantidade de policiais militares (para não dizer uma quantidade exagerada) acompanhou os cerca de 2000 manifestantes, e já durante a concentração alguns policiais nos avisaram que tinha muito mais polícia nos esperando na Assembléia. Saímos pela Avenida Paulista e descemos a Brigadeiro em passeata pacífica com o cordão da PM isolando.

Ao chegarmos ao Ibirapuera, as rampas da Assembléia estavam repletas de policiais enfileirados, dentre eles a Força Tática (grupo preparado para confrontos) para impedir nossa entrada. Como esta é uma ação ilegal, o que eles podem e fizeram foi obstruir a passagem e causar empecilhos para que poucas pessoas entrassem. Na tentativa de que todos entrássemos, ficamos na porta da Assembléia durante três horas em negociações até o horário de início da sessão extraordinária. (Lembrando que no dia 8, éramos quase 3 mil pessoas e todos puderam entrar. Nada aconteceu ao prédio nem aos deputados.)

Em uma assembléia estudantil realizada no local, deliberamos que, se nossa entrada não fosse viabilizada até o início da sessão extraordinária, 19h, sairíamos rumo à avenida Pedro Álvares Cabral, para fechar o trânsito e seguir com o protesto, como de costume nas manifestações em frente à Assembléia. (A mesma forma, inclusive, foi utilizada no dia anterior, terça-feira, sem conflito físico algum).

Aproximadamente 400 manifestantes, praticamente todos estudantes, chegaram a tomar a via mais próxima da Pedro Álvares – mas por poucos minutos.
Logo em seguida, os escudos da Força Tática já podiam ser vistos, enfileirados, em nossa direção. Diante da ameaça policial, os estudantes sentaram-se na rua, tentando permanecer no local.

Não demorou muito para que a PM se aproximasse, dispersando o grupo com bombas de efeito moral (cujo efeito físico pôde ser sentido por alguns manifestantes e pelo cinegrafista da Globo, feridos na perna pelos estilhaços) e de gás lacrimogêneo.

Fugindo das bombas, corremos até o cruzamento mais próximo, ao lado do empurra-empurra do Brecheret. Acreditávamos que onde os carros estivessem, as bombas não chegariam. Nesse momento, precisando da “ajuda” dos motoristas, informamos o motivo da manifestação e a ação da polícia.

A correria e as bombas prosseguiram por cerca de uma hora. Em seguida, ante os boatos de prisões sendo realizadas entre os estudantes, a manifestação se dispersou em pequenos grupos que tentariam, por ruas alternativas, retornar ao encontro dos estudantes que permaneceram na Assembléia Legislativa.

No caminho, o helicóptero da polícia passava seu facho de luz, vasculhando as ruas desertas usadas pelos estudantes.

De volta à Alesp, soubemos que alguns grupos foram abordados – com direito a arma apontada para a cabeça - e que mais manifestantes haviam sido presos, totalizando 13, dentre eles Tadeu Breda, aluno do 3º ano de Jornalismo noturno.

Após o encerramento da sessão, foi decidido que hoje (15), às 19h, haverá outra sessão extraordinária. E outras serão marcadas, ainda sem data prevista.
Com tudo o que aconteceu, o que os deputados parecem querer é que a manifestação acabe e que possam manter o veto (já que são necessários votos da bancada governista para sua derrubada).

De qualquer forma, este não é um e-mail de propaganda do Movimento Estudantil. É para que todos saibam a forma como nossos governantes tratam a questão da educação pública. Pense que atacaram com bombas estudantes da USP, Unicamp, Unesp e Fatecs, ou seja, pessoas esclarecidas. Imaginem o que não fazem em protestos da Escola pública de ensino fundamental e médio, ou outros movimentos sociais.

É dispensável falar sobre a falta de verba que nós, alunos, percebemos em cada unidade. Entretanto, sabemos que a USP é privilegiada e, portanto, achamos interessante que todos saibam que na Unesp o fim das aulas foi adiantado para o dia 10 de novembro, devido a falta de verbas para o pagamentos dos professores - que já não receberão o 13°.
Agência de Notícias da Assembléia Legislativa

Presidente da Assembléia Legislativa convoca nova sessão extraordinária para esta quinta-feira, 15/9

Passeata do Masp até a Alesp reuniu 3 mil pessoas contra o veto de Alckmin


A sessão extraordinária realizada hoje na Assembléia Legislativa (Alesp) com a finalidade de apreciar o veto do governador Alckmin à LDO teve início às 19 horas e foi encerrada por volta das 21 horas, sem que houvesse a votação. Como não houve acordo com a bancada governista, a votação só poderá ocorrer após 12 horas de debate sobre o tema em pauta, como prevê o Regimento da Alesp.

O presidente da Alesp, deputado Rodrigo Garcia (PFL), convocou uma nova sessão extraordinária para esta quinta-feira, 15/9. Quando for iniciada a nova sessão, será descontado o tempo de 1h10 de discussão já realizada na sessão de hoje.

Durante a tarde, uma passeata com 3 mil pessoas dirigiu-se do Masp para a Alesp. Não houve incidentes. No entanto, a maior parte dos manifestantes não conseguiu entrar na Alesp. A Polícia Militar alegava que estava disponível unicamente o Plenário Juscelino Kubistchek, com 243 lugares. No entanto, o Auditório Franco Montoro estava vazio, ao contrário do que afirmava a PM. Além disso, quem conseguiu entrar foi submetido a uma revista lenta e rigorosa.

Esta situação terminou por provocar conflitos entre a PM e os manifestantes. Quando estes, em sinal de protesto, tentaram bloquear a Avenida Pedro Álvares Cabral, um contingente da tropa de choque da PM avançou sobre eles com bombas de gás e cassetetes, sem qualquer tentativa de negociação. A cavalaria também foi usada. Os manifestantes foram perseguidos. Tentaram bloquear a Brigadeiro Luis Antonio, mas foram empurrados pela PM em direção à Avenida Santo Amaro.

Onze pessoas foram detidas. Um estudante da Unicamp foi levado para o 78º Distrito Policial embora estivesse com um sério ferimento no pé, causado pela explosão de uma bomba atirada pela PM. Um repórter-cinematográfico da TV Globo também foi ferido por uma bomba da PM e precisou ser medicado. Os detidos prestaram depoimento e foram liberados, voltando para a Alesp, onde chegaram pouco antes das 24 horas.
Apesar de você...
Texto de João Peres, aluno do 3° ano de Jornalismo noturno (ECA-USP)

A força desmedida usada pela Polícia Militar na repressão à manifestação pacífica dos estudantes evidencia muita coisa. Primeiro, que estamos lidando com uma Assembléia Legislativa que teme a presença do povo. O mesmo vale para o governador e para o Secretário de Segurança, Saulo de Castro. Nenhuma confusão teria ocorrido caso fosse permitido o ingresso de todos os manifestantes no Palácio Nove de Julho, o que já havia acontecido no dia primeiro de setembro sem registro de problemas.


Não se sabe por ordem de quem (mas se suspeita), no entanto, os estudantes foram barrados. O mais irônico é que a Assembléia Legislativa ostenta de cada lado de seu edifício duas enormes faixas com os dizeres “Democracia” e “Cidadania”. Democracia, como fica evidente, só existe em época de eleição. No final do ano que vem, todos serão tratados como iguais e terão a efêmera ilusão de mudança. Quanto à cidadania, prova maior da falta dela dão os deputados governistas e Alckmin ao, vergonhosamente, atrapalharem votações e fugirem do cumprimento de suas obrigações profissionais, causando prejuízo inestimável a toda população.

Na continuação dos problemas, tivemos a constatação da existência de uma força capaz de debelar uma guerrilha. No que Alckmin e Saulo de Castro têm razão. Afinal, os estudantes estavam poderosamente armados. Eram terríveis matadores munidos de voz e vontade de mudança, dois fatores que, de fato, as pessoas autoritárias sempre temeram.

Fica claro o despreparo de nossas forças policiais, treinadas de maneira fascista para a repressão violenta, incapazes de diálogo. Reflexos de uma Secretaria de Segurança Pública que tenta misturar manifestações estudantis com crime organizado. A junção de um governo autoritário com uma polícia despreparada dão a equação de um desastre previsível. Alckmin não consegue aguentar a voz do povo e usa a PM como canal para sua fúria quando nota o perigo de arranhões em sua imagem.
Desde o começo, ficou clara a vontade das forças de repressão conseguirem a construção de um conflito. Numa das rampas da assembléia estavam posicionados ao menos 50 homens da PM comum e outros tantos do Choque (“Para quê o Choque?”, era a pergunta dos estudantes).

Para que? Alckmin responde. Como no dia anterior (13/09), os estudantes, ao não conseguirem ingressar no Palácio Nove de Julho, realizaram o fechamento da rua como modo de exercer pressão para negociação da entrada. Na terça-feira, PM e CET realizaram o desvio do trânsito de maneira pacífica, respeitando o direito de manifestação, tão básico quanto o de ir e vir. Não houve nenhum grande transtorno. Não houve conflito de nenhuma ordem.

No entanto, no dia seguinte, se contradizendo, a polícia partiu de imediato para cima dos estudantes. O Choque usou a animalesca violência que lhe é peculiar. Estudantes foram tratados como assassinos, enquanto bandidos de verdade matavam inocentes, tudo dentro das normas da lei, é claro. Obviamente, o número real de crimes não aparecerá em local algum, todos sabem o porquê. Enquanto isso, manifestantes foram chutados pelos policiais mesmo após se deitarem no chão. Outro teve uma arma encostada em sua cabeça. Os dois atos, covardemente, não foram filmados por um câmera de uma grande rede de TV (equipamento devidamente desligado). Tudo isso se passou em uma rua escura após minutos de perseguição aérea. Isso mesmo. Saulo de Castro enviou até um helicóptero para a repressão do terrível movimento.

O arsenal bélico usado pelo governo Alckmin na “macarrônica” operação facilmente atingiu dezenas de milhares de reais. Dinheiro que poderia ser usado em educação e saúde. Ou melhor, deslocando investigadores para combate a sonegação do ICMS, imposto que banca a educação. Calcula-se como satisfatório o pagamento de apenas 5% do tributo, enquanto o normal seria 18%. Ou seja, caso Alckmin estivesse preocupado em combater esse problema, resolveria boa parte dos problemas da educação.

Mas, de fato, o governador deve mesmo focar-se nos perigosos estudantes. Afinal, o “alquimista” continua criando fórmulas para manter sua imagem de bom moço. O que seria dos malufistas recém-orfanados se não tivessem em quem votar? E dos famintos banqueiros, ansiosos por mais um governo neoliberal para que possam deitar e rolar em cima da população? E dos políticos corruptos e contratos mal-feitos, sempre ávidos por esconder falcatruas, contando para isso com a conivência e apoio do governador? Para ciência da população, Alckmin vetou todas as quase 60 aberturas de CPIs que lhe foram encaminhadas. Todas encontram-se paradas na Alesp. O necrochorume alquimista começa a vazar. E o azar é dele.

Para concluir o assunto da manifestação desta quarta-feira, falta contar o destino dos 13 colegas detidos pela PM. Após alguns chutes no estômago e algumas armas na cabeça, todos foram levados ao 78DP, nos Jardins. Lá, a PM nada pôde fazer, pois não havia nenhum crime a inventar. Deixaram uma brecha no Código Penal. Não se lembraram de tornar crime o fato de correr da polícia. Delito gravíssimo. Honesto que é honesto fica parado, toma bomba e cacetete na cabeça, tudo sorrindo. Os estudantes provocaram danos seríssimos ao asfalto da Brigadeiro ao tentarem escapar da fúria policialesca. Criminosos da pior estirpe. Alckmin tem mesmo muito a temer.

E os PMs que ontem trabalharam na Assembléia também. Estavam todos sem identificação. Crime. Fotos foram tiradas e serão encaminhadas à Corregedoria e ao Ministério Público. Quanto ao governador, creio que pode se preparar para muitas noites em claro. O amor acabou. Caso queira mesmo ser presidente de Pindorama, vai ter que, primeiramente, conter o lixo que vaza de seu governo estadual. Depois, não se sabe qual será a próxima atitude autoritária do governo Alckmin. A certeza, caro governador, é que, a cada dia que passa, o barulho será maior. Até que toda sua força de repressão já não seja capaz de calar as massas. É assim que o mundo funciona em tempos de exceção. Bem-vindo ao inferno.

Imagens dos protestos

Links para imagens da Adusp (Associação dos Docentes da USP) dos atos de 30/08 e 1°/09, todas do fotógrafo Daniel Garcia.


http://www.adusp.org.br/ldo/fotos_300505/images/DSC_0168.jpg

http://www.adusp.org.br/ldo/fotos_300505/images/DSC_0171.jpg

http://www.adusp.org.br/ldo/fotos_300505/images/DSC_0207.jpg

Imagens do site do Centro de Mídia Independente (http://www.midiaindependente.org) do movimento no plenário Juscelino Kubitschek, dentro da Assembléia Legislativa, enquanto a tropa de choque disparava bombas de gás lacrimogêneo na multidão de estudantes do lado de fora. As fotos do CMI provém originalmente do site da Assembléia Legislativa.

http://brasil.indymedia.org/images/2005/09/329696.jpg

http://brasil.indymedia.org/images/2005/09/329697.jpg

Folha de São Paulo

Alckmin veta mais verba para universidades

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), vetou o mecanismo que permitiria o aumento de recursos para as universidades estaduais paulistas. De acordo com a Lei de Diretrizes Orçamentárias para 2006, aprovada pela Assembléia Legislativa, a parcela do ICMS (principal imposto paulista) destinada a USP, a Unesp e a Unicamp subiria dos atuais 9,57% para 10%.

Se o novo índice fosse aplicado hoje, seriam R$ 150 milhões a mais para as três instituições --equivalente a quase o dobro do que foi repassado pelo governo para a USP Leste, novo campus da Universidade de São Paulo.

Não é possível fazer o cálculo do valor exato que o aumento percentual poderia gerar porque a arrecadação do ICMS varia a cada ano. Em 2005, o orçamento destinado para as três universidades é de R$ 3,56 bilhões.

Ensino público

O governo também derrubou o aumento de 30% para 31% da receita tributária designada para o ensino público em geral, além da vinculação de 1% do ICMS para o Centro Paula Souza, que administra as faculdades tecnológicas e escolas técnicas do Estado. O texto, com os vetos do governador, volta para a Assembléia. A decisão de Alckmin pode ser derrubada pelo voto da maioria absoluta dos deputados (48 votos).

O presidente do Cruesp (conselho que reúne as universidades paulistas), Marcos Macari, afirmou que o aumento da vinculação dos recursos daria mais segurança para a criação de vagas e para a consolidação da expansão já feita nos últimos anos. "Agora vamos ter de negociar caso a caso. Espero que o governador acolha os projetos", disse Macari, que também é o reitor da Unesp.
"O governo diz que educação é prioridade, mas veta o aumento", reclamou o vice-presidente da associação de docentes da USP, Francisco Miraglia. "Isso mostra que a educação não é prioridade [nesta gestão]", criticou Carlos Ramiro, que representa os professores do ensino básico estadual.

Outro lado

O governo estadual afirmou, por meio de nota, que os vetos foram feitos para "não engessar ainda mais a execução orçamentária" e "não permitir a ampliação do já elevado grau de vinculação de recursos, sob o risco de comprometer investimentos em outras áreas prioritárias". O texto afirma também que o governo "já gasta mais do que 9,57% da receita do ICMS com as universidades" e que a ampliação de vagas está sendo feita com recursos adicionais à verba repassada pela porcentagem fixa desse imposto. "Na prática, as universidades estaduais já ficam com cerca de 10% dos recursos do ICMS", diz a nota, que diz ainda que "o ensino público é uma das prioridades deste governo".

Vou começar postando antigas notícias sobre o veto de Geraldo Alckmin às emendas na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) que aumentam a verba para a educação. A idéia é fazer uma seqüência cronológica das reportagens publicadas e criticar os meios de comunicação que divulgam informações incompletas ou erradas.

Além disso, é necessário centralizar as deliberações de assembléias dos sindicatos de funcionários e das associações de professores das universidades estaduais paulistas, além de informações dos DCEs. Também divulgar o calendário de greve nas universidades e das manifestações, além das decisões na própria Assembléia Legislativa.

Quem quiser mandar relatos ou fotos para serem publicados, usem o e-mail
rafael__sampaio@hotmail.com

O ideal é que houvesse um e-mail só para o blog, mas como ainda não tem...